Metaphor: ReFantazio – Review

A Atlus deixou claro em 2024 que vive um de seus momentos mais inspirados. Em um único ano, a empresa conseguiu lançar títulos de enorme relevância, cada um com propostas distintas, mas todos carregando o mesmo cuidado artístico e excelência técnica que consolidaram o estúdio ao longo das décadas. Persona 3 Reload mostrou como revisitar um clássico com respeito e modernidade, enquanto outros projetos reforçaram a versatilidade da desenvolvedora.

Ainda assim, Metaphor: ReFantazio surge como algo maior: não apenas mais um grande jogo, mas uma declaração criativa. Trata-se da obra mais ambiciosa, autoral e completa já produzida pela Atlus, uma nova IP que nasce forte o suficiente para caminhar lado a lado com Persona.

A narrativa se passa no Reino Unido de Euchronia, um mundo de fantasia marcado por profundas divisões sociais, políticas e raciais. Diversas Tribos coexistem nesse território, mas de forma extremamente desigual. Algumas gozam de privilégios históricos, enquanto outras são marginalizadas, perseguidas ou tratadas como cidadãos de segunda classe. O protagonista pertence à Tribo Elda, a mais discriminada de todas, e essa condição não é apenas um detalhe de lore: ela influencia diretamente diálogos, eventos, a reação dos NPCs e até a progressão narrativa. O jogo faz questão de lembrar, constantemente, que aquele mundo não é justo — e que ascender dentro dele exige muito mais esforço de quem nasce à margem.

O assassinato do rei desencadeia o grande conflito central da história. Sem herdeiros legítimos, Euchronia entra em colapso político e institui um torneio eleitoral onde qualquer pessoa pode se tornar o novo monarca, desde que conquiste o apoio popular. Essa premissa é brilhante porque transforma a jornada em algo muito mais complexo do que uma simples aventura heroica. Aqui, não basta derrotar monstros: é preciso discursar, convencer, debater, ajudar comunidades esquecidas e lidar com a imagem pública. O poder da palavra se torna tão importante quanto o poder da espada.

Paralelamente a essa corrida pelo trono, existe a missão de salvar o príncipe amaldiçoado, que permanece em estado de coma há anos. A maldição que o aflige é um símbolo poderoso dentro da narrativa, representando tanto a decadência do reino quanto o medo do desconhecido. A única forma conhecida de quebrá-la é derrotar Louis, o candidato mais forte ao trono e, ao mesmo tempo, o antagonista mais marcante da história. Louis não é um vilão raso: ele é carismático, cruel, ideológico e perigosamente convincente. Sua presença gera ódio, raiva e frustração, mas também levanta questionamentos desconfortáveis sobre poder, justiça e fanatismo.

O protagonista de Metaphor: ReFantazio é um dos maiores acertos do jogo. Diferente dos protagonistas silenciosos tradicionais da Atlus, ele possui voz, personalidade e posicionamento moral claro. Mesmo que o jogador faça escolhas de diálogo, fica evidente que ele é um personagem próprio, com ideais bem definidos. Sua jornada é a de um pária social tentando provar que é digno de liderar um mundo que o rejeita. Essa ascensão é construída com cuidado, falhas e momentos de dúvida, o que torna sua trajetória extremamente humana e envolvente.

O elenco de personagens jogáveis é simplesmente excepcional. Cada membro do grupo pertence a uma Tribo diferente, o que permite ao jogo explorar múltiplas perspectivas sobre o preconceito e a desigualdade em Euchronia. Heismay se destaca pela carga emocional de seu passado e pela forma como sua dor é tratada com respeito. Maria representa de maneira devastadora as consequências diretas da violência estrutural e da exclusão social. Hulkenberg, Strohl, Junah e os demais não são apenas arquétipos narrativos, mas indivíduos complexos, cheios de contradições, medos e esperanças. Não há personagens descartáveis — todos têm espaço para brilhar e evoluir ao longo da campanha.

Os vínculos criados com esses personagens funcionam de forma semelhante aos Social Links de Persona, mas aqui estão ainda mais integrados à narrativa principal. Cada evento de vínculo aprofunda não apenas o personagem em questão, mas também o mundo ao redor, revelando como diferentes Tribos vivem, sofrem e resistem dentro de Euchronia. O protagonista atua como uma espécie de âncora moral, sempre tentando enxergar o melhor nas pessoas e ajudá-las a superar seus traumas. A história deixa claro que a verdadeira revolução não vem apenas da tomada do poder, mas da construção de laços genuínos.

No campo da jogabilidade, Metaphor: ReFantazio representa o ápice do design de RPG da Atlus. O sistema de combate combina ação em tempo real com batalhas por turnos de forma extremamente elegante. Durante a exploração das dungeons, o jogador pode enfrentar inimigos diretamente no campo, utilizando ataques rápidos, esquivas e posicionamento estratégico. Essas ações não são meramente decorativas: elas influenciam diretamente o início das batalhas por turnos, podendo garantir vantagens significativas ou, em caso de erro, resultar em emboscadas perigosas.

Ao entrar no combate por turnos, o jogo utiliza o consagrado sistema Press Turn. Cada ação consome ícones de turno, e explorar fraquezas inimigas ou evitar ataques pode render turnos extras, enquanto erros estratégicos são severamente punidos. Esse sistema exige planejamento constante e conhecimento profundo das habilidades disponíveis. Não basta ter personagens fortes; é preciso entender como eles funcionam em conjunto.

O sistema de Arquétipos é o coração da jogabilidade. Funcionando como classes, eles definem habilidades, afinidades, armas e estilos de jogo. Cavaleiros Sagrados, Ladrões, Clérigos, Magos, Mercadores e diversas outras classes oferecem uma variedade impressionante de abordagens estratégicas. Diferente de Persona, os Arquétipos podem ser trocados fora do combate, incentivando experimentação constante. No entanto, a impossibilidade de mudá-los durante as batalhas adiciona um peso real às decisões do jogador.

A progressão dos Arquétipos acontece por meio de uma árvore extensa e bem planejada. Além disso, é possível herdar habilidades de um Arquétipo para outro, criando combinações únicas e sinergias poderosas. As habilidades de Síntese, que dependem da combinação de Arquétipos entre personagens, adicionam mais uma camada de profundidade. Elas são extremamente fortes, mas consomem múltiplos turnos, reforçando o conceito de risco e recompensa que permeia todo o sistema de combate.

As batalhas contra chefes merecem destaque especial. Elas estão entre as mais desafiadoras já criadas pela Atlus. Cada chefe possui padrões específicos, resistências e mecânicas próprias, exigindo preparação cuidadosa. Muitas vezes, morrer faz parte do processo de aprendizado, e vencer um chefe difícil traz uma sensação genuína de conquista.

Fora do combate, o jogo mantém a estrutura de calendário, mas aqui ela atinge sua forma mais refinada. O tempo é um recurso valioso, e cada dia precisa ser bem planejado entre exploração, missões secundárias, vínculos sociais e atividades que aumentam as Virtudes Reais — equivalentes aos atributos sociais de Persona. Essas virtudes são essenciais para desbloquear partes avançadas dos vínculos e novas possibilidades narrativas.

O mundo de Euchronia é vasto, rico e extremamente detalhado. Cada cidade possui identidade visual própria, hierarquias sociais claras e uma sensação real de vida. Desde distritos pobres até grandes centros urbanos, tudo é construído com atenção aos detalhes. As dungeons apresentam design vertical, caminhos alternativos e segredos escondidos, incentivando a exploração minuciosa.

Enquanto o Gauntlet Runner, veículo que serve como base móvel do grupo, é um dos elementos mais charmosos do jogo. Ele funciona quase como uma cidade ambulante, oferecendo atividades como jardinagem, culinária, pesca e interações entre os personagens. Essa mecânica reforça o sentimento de jornada e cria momentos de respiro entre os grandes conflitos da história.

Visualmente, Metaphor: ReFantazio é deslumbrante. O estilo anime é refinado, com personagens expressivos, animações fluidas e um uso de cores extremamente marcante. Além disso, a direção de arte é ousada e cheia de personalidade, especialmente nos menus, que são verdadeiras obras de arte funcionais. Cada Arquétipo possui um design único e simbólico, reforçando a identidade de cada classe.

A trilha sonora de Shoji Meguro é, sem exageros, uma de suas melhores obras. Misturando elementos medievais, corais em Esperanto e temas épicos, a música eleva cada momento do jogo. Por fim, as faixas de batalha são memoráveis, e os temas associados a personagens e locais ajudam a construir uma atmosfera única e envolvente.

Metaphor: ReFantazio vale a pena?

Metaphor: ReFantazio se consolida como um marco moderno dos RPGs, reunindo narrativa densa, personagens memoráveis e sistemas de jogo profundamente interligados. Sua ambição não está apenas na escala, mas na coragem de abordar temas complexos sem perder o encanto da fantasia. Ao equilibrar estratégia, emoção e liberdade criativa, o título reafirma o talento da Atlus em reinventar suas próprias fórmulas. Mais do que um novo começo, é uma afirmação de identidade e um prenúncio do que ainda pode evoluir no gênero nos próximos anos com confiança e consistência raramente vistas na indústria contemporânea global atual em constante transformação

Agradeço a SEGA pelo envio do jogo para review!

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