Crisol: Theater of Idols – Review

Crisol: Theater of Idols – Review

É sempre interessante quando um jogo de terror aposta em referências culturais menos exploradas. Em vez de recorrer apenas a clichês já conhecidos do gênero, Crisol: Theater of Idols encontra no folclore e na religiosidade espanhola uma identidade própria, transformando símbolos sagrados e rituais religiosos em elementos de horror. O resultado é uma experiência constantemente tensa e visualmente marcante, com uma ambientação que se destaca como um de seus maiores trunfos, ainda que alguns problemas de design acabem enfraquecendo o impacto ao longo da campanha.

A narrativa acompanha Gabriel, um soldado marcado por uma missão supostamente divina, que o leva a uma ilha isolada e amaldiçoada, onde o passado foi moldado por cultos, sacrifícios e uma fé levada ao extremo. O resultado é uma experiência constantemente tensa e visualmente marcante, com uma ambientação que se destaca como um de seus maiores trunfos, ainda que alguns problemas de design acabem enfraquecendo o impacto ao longo da campanha.

Os cenários são carregados de simbolismo e reforçam o tom perturbador da jornada. Ruínas corroídas pelo tempo, templos abandonados e vilarejos tomados pelo silêncio funcionam não apenas como pano de fundo, mas como fragmentos de uma história contada de forma indireta, sugerindo a queda de uma sociedade que venerava ídolos e divindades com violência e fanatismo.

O design artístico chama atenção pelo uso de inimigos que lembram esculturas ou bonecos de madeira animados, além de imagens religiosas deformadas que parecem punir o jogador por avançar. Essa direção de arte cria uma atmosfera opressiva e dialoga diretamente com os conflitos internos de Gabriel, que passa a questionar o peso de sua fé e o real significado de seu “dom”, especialmente quando seus poderes cobram um preço cada vez mais alto.

Mesmo quando a jogabilidade apresenta limitações mais evidentes, como a baixa variedade de inimigos comuns, o impacto visual e narrativo consegue sustentar parte da imersão. Ainda assim, a repetição constante dos mesmos tipos de ameaça se torna perceptível conforme a história avança, gerando um desgaste que contrasta com a complexidade temática do mundo apresentado e com as reflexões propostas sobre devoção, sacrifício e obediência.

Por outro lado, o jogo demonstra criatividade ao introduzir inimigos e situações que quebram esse padrão e alteram completamente o ritmo da gameplay. Dolores é um exemplo marcante, presença quase ritualística que persegue o jogador no primeiro ato, transformando o terror em experiência psicológica, sufocante e persistente. Nesses momentos, o combate deixa de ser uma alternativa plausível, seja pela escassez de recursos ou pelo próprio significado narrativo do encontro. O foco passa a ser a fuga, a leitura atenta do ambiente e a execução precisa das ações no tempo certo. São sequências que reforçam o sentimento de vulnerabilidade de Gabriel e deixam claro que, naquele mundo, nem mesmo a fé garante salvação.

Na mecânica central, o jogo utiliza o sangue como recurso vital. O protagonista pode absorver sangue humano ou animal para recuperar energia, desbloqueando novos recursos, progressões, itens, caminhos alternativos e interações com o mundo. Em contrapartida, o próprio sangue do personagem é usado para gerar munição, criando um ciclo constante de risco e recompensa. A ideia funciona bem no conceito e reforça o clima de tensão, mas acaba sendo prejudicada pelo balanceamento inconsistente dos combates.

O combate alterna entre armas de fogo e confrontos corpo a corpo. A faca, por exemplo, frequentemente se mostra mais eficiente do que a pistola, permitindo ataques rápidos e bloqueios quando usada no tempo correto. No entanto, ela sofre desgaste ao uso, perde eficiência e exige que o jogador encontre gasolina e use motos afiadoras pelo cenário para restaurá-la. Essa mecânica adiciona gestão extra de recursos, mas torna-se repetitiva com o progresso, sobretudo quando o combate corpo a corpo se mostra mais vantajoso.

Entre as armas, a escopeta é claramente o grande destaque. Seu alto poder de impacto faz com que seja extremamente eficiente em curta distância, frequentemente derrubando inimigos com um único disparo. Esse desempenho, porém, escancara ainda mais o desequilíbrio em relação à pistola, que costuma exigir cinco ou mais tiros para derrotar os mesmos inimigos. Soma-se a isso a alta resistência dos inimigos comuns, que torna muitos confrontos excessivamente longos e cansativos, afastando jogadores que buscam uma experiência mais acessível.

Crisol: Theater of Idols vale a pena?

Crisol: Theater of Idols se destaca pela ambientação poderosa e pelo uso criativo do folclore religioso espanhol, entregando momentos de terror genuinamente memoráveis. No entanto, a repetição de inimigos, o balanceamento inconsistente e a lentidão nas interações prejudicam o ritmo e o envolvimento a longo prazo. É uma experiência interessante e atmosférica, mas que deixa a sensação de potencial desperdiçado.

Agradeço a Blumhouse Games pelo envio do jogo para review!

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