Dispatch – Review

Dispatch – Review

O estúdio AdHoc, formado por veteranos que trabalharam em grandes narrativas, traz uma das obras que reafirma o gênero interativo e episódico (algo esquecido desde a Telltale). Dispatch é um drama de super-heróis com grande influência de animes e principalmente séries conhecidas, como The Boys e até mesmo Invencible. Com uma jogabilidade que combina escolhas, estratégia e bons momentos de ação, o título nos conduz por um mundo de heroísmo, falhas e uma profundidade narrativa densa em certos pontos.

Dispatch conta a história de Robert Robertson, um homem que carrega um fardo heroico que nunca pediu. Por trás do título de Homem-Meca, ele não possui poderes mirabolantes, mas é um ser humano normal, preso em um trajeto tecnológico herdado da família. Em uma vida repleta de erros e traumas, Robert se vê longe de ser quem gostaria de ser. As coisas saem do controle quando um desastre acontece e ele se vê quebrado por dentro e por fora, sem saber se ainda é capaz de ser um herói e fazer o bem.

Em seu momento de maior fragilidade e dúvidas, surge uma oportunidade que pode mudar sua vida: Entrar para a SDN, como um mentor e coordenador de uma equipe forma por ex-vilões que buscam reconstruir suas vidas. A partir desse ponto, o jogo constrói uma estrutura onde o mundo de heroísmo se tornou um grande sistema (algo parecido com The Boys), mas com pequenas brechas para redenção, humanidade e vínculos reais. Dispatch é corajoso ao não se apoiar nas velhas histórias de redenção que já vimos, mas ele transforma cada personagem através de suas falhas, traumas e principalmente esperança, especialmente Robert.

Robert e sua equipe, chamada de Z-Team, são o coração da história e desenvolvem uma relação problemática e única. Ao longo dos episódios, o jogador conhece diversas figuras excêntricas, mas repletas de humanidade. Os personagens variam de assassinos sanguinarios que estão arrependidos de seus atos, criaturas místicas, mutantes e até demônios que buscam um novo significado para sua existência. Apesar de ser um grupo que teria tudo para dar errado, eles são a magia da narrativa com seu convívio único. Em diversos momentos temos conversas desconfortáveis, tensões entre membros, momentos de drama e vulnerabilidade, e claro, muitos momentos de humor e piadas.

Em uma narrativa tão densa, as escolhas são fundamentais para trilha seu caminho, indo além de uma bifurcação de roteiro, mas como parte para moldar Robert e seu futuro. Cada decisão vai além de consequências narrativas, mas elas modal o tipo de líder e pessoa que ele está se tornando. As escolhas realmente pesam, se você for duro demais pode quebrar a confiança de alguém que estava tentando se abrir com você; ser gentil em certos momentos geram mais lealdade e confiança em certos personagens. Diferente de muitos títulos onde as escolhas não possuem peso ou consequências, Dispatch trata isso de forma certeira, trazendo consequências devastadoras e impactos genuínos na narrativa.

Essa densidade emocional tornam as interações mais vivas, mas graças ao excelente trabalho de roteiro da AdHoc. Os diálogos são naturais, repletos de nuances e interpretações, mas nunca forçados ou fora de tom. Os conflitos internos acontecem e são parte crucial do amadurecimento, mas a camaradagem, rivalidade e cumplicidade fazem com que o Z-Team e Robert cresçam a cada escolha. Antes quebrado, Robert ganha confiança e propósito, não por discursos mirabolantes ou querer voltar a ser um grande herói, mas por enxergar que ele é o espelho para seus colegas de equipe, representando algo que eles nunca tiveram.

A jogabilidade é simples e complementa de forma única o formato híbrido entre narrativa interativa e gerenciamento dos heróis. Como despachante da SND, é preciso analisas chamados pela cidade, identificar ameaças e designar heróis lidar com cada situação. O que parece simples logo se transforma em escolhas táticas, porque cada membro da equipe possui habilidades, limitações e sinergias específicas. Enviar alguém que incompatível com a tarefa pode resultar em falhas, ferimentos ou até mesmo em bloquear diálogos e ações futuras. O ato de escolher não é apenas mecânico, é relacionado ao cuidado com cada personagem e a confiança que deposita neles, fazendo com que cresçam a cada desafio.

A estratégia se destaca e funciona em harmonia com momentos de maior interação. Os diálogos e suas ramificações, decisões críticas, escolhas certas para heróis e suas nuances emocionais, não competem com a narrativa ou tentam se destacar mais que a história. Dispatch sabe exatamente o que faz, complementando a narrativa com todos os outros aspectos, sendo uma experiência uniforme onde a jogabilidade não é maior que a história ou vice-versa, é tudo complementar. Mesmo em momentos de ação com QTE, o jogo não tenta se passar por um jogo do gênero, mas se mantém um drama interativo.

Dispatch se impulsiona ainda mais com sua direção de arte que mistura elementos de HQs e cinema. Os personagens são detalhes, as animações cuidadosas e fluidas. Cada enquadramento é pensado, não mostrando apenas uma cena, mas também tentando transmitir alguma emoção através dela. A clareza visual e a movimentação dos personagens são espetaculares, principalmente pelo grande elenco de atuação.

O título conta com nomes de peso em seu elenco, trazendo performance únicas. Temos estrelas mundialmente famosas como Aaron Paul (Breaking Bad) até Charlie (Penguinz0 – The Moist Critical). Todos atuam de forma brilhante, retratando todo humor, dor, inseguranças e charme característicos de cada personagem.

Tecnicamente, o jogo mantém estabilidade exemplar. As animações fluem com naturalidade, os carregamentos são rápidos e não há quedas perceptíveis de desempenho. A ausência de interatividade em certos momentos é amplamente compensada pela qualidade da apresentação

A trilha sonora acompanha tudo isso com uma precisão emocional rara. Os temas dramáticos elevam os diálogos mais íntimos, as composições vibrantes intensificam os momentos de tensão. Além disso, a música dá ritmo, sugere subtextos e, muitas vezes, carrega a emoção que os personagens não conseguem expressar.

Dispatch vale a pena?

Dispatch merece ser jogado. O game entrega uma narrativa poderosa, cheia de escolhas que realmente importam e personagens escritos com profundidade rara no gênero. A combinação entre drama interativo e estratégia funciona perfeitamente, reforçando o peso emocional de cada decisão. Somado a um elenco de alto nível, direção de arte estilosa e trilha sonora marcante, o resultado é uma experiência envolvente do início ao fim. Para quem busca histórias fortes e impactantes, é uma recomendação segura.

Agradeço ao AdHoc Studio pelo envio do jogo para review!

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