I Hate This Place – Review

I Hate This Place – Review

I Hate This Place chama a atenção logo por sua identidade visual, no entanto, ele surpreende indo muito além disso. Com a proposta de ser um survival horror isométrico, o título aposta em furtividade, gestão de recursos e uma relação onde o som afeta o comportamento dos inimigos. Em um mercado saturado por experiências simples demais e sem identidade própria, o título demonstra ambição e principalmente identidade, mas também peca em executar alguns aspectos pontuais do jogo.

A narrativa gira em torno de Elena, uma jovem que está presa em um pesadelo após um ritual dar errado. Inicialmente o objetivo era simplesmente contactar um ente falecido, mas o resultado dá muito errado e libera uma força maligna. Para piorar a situação, sua amiga Lou está desaparecida, e o mundo ao redor não é mais conexo com a realidade, trazendo criaturas estranhas e uma hostilidade profunda. A busca por Lou é o grande ponto da história, nos levando por um caminho repleto de ameaças e onde devemos gerenciar cada passo e itens.

Diferente de muitos títulos do gênero, o jogo não aposta em sustos explícitos ou terror psicológico profundo. Ele aposta em nossa vulnerabilidade, o medo é nosso pior inimigos, pois não sabemos o que nos espera à frente. A constante ameaça do ambiente e o silêncio inquietante podem apresentar criaturas que caçam pelo som e estão esperando um pequeno deslize para aparecer. Ainda assim, eu considero o título mais um jogo do gênero de sobrevivência do que terror, algo que pode frustrar quem espera o contrário.

I Hate This Place possui uma jogabilidade bem sólida onde a furtividade e a exploração são os grandes destaques. A maioria dos inimigos são extremamente perigosos caso enfrente-os diretamente, principalmente no inicio. É preciso aprender como cada monstro funciona, por exemplo, muitos deles são cegos e se guiam exclusivamente pelo som, tornando estratégico cada passo dado. O jogo indica os ruídos através de pequenos textos, no melhor estilo HQs, então é necessário prestar atenção ao solo, principalmente em superfícies diferentes, como vidro e concreto.

O sistema é bem introduzido e desde o começo é fácil se adaptar a ele, passando a sensação de tensão logo no começo. Um simples passo em falso e pode gerar perseguições caóticas ou mortes rápidas. Para se livrar de muitos perigos, é preciso escolher rotas e saber quando correr, mas também é preciso se atentar aos objetos do ambiente e utilizá-los de forma precisa. Esse equilíbrio, torna a aventura dinâmica e tensa, mas também prazerosa por conseguir atravessar tantos perigos.

No entanto, é claro que algo não funcionaria tão bem. O combate é um pouco travado e pouco intuitivo, com um esquema de controles que parece ter sido pensado para o PC. Claro, com o tempo você se adapta, mas a sensação de rigidez sempre está ali. Em certos momentos de precisão e respostas rápidas, esse refinamento pode atrapalhar e frustrar.

Um dos grandes pilares de I Hate This Place é a construção e manutenção da base, conhecida como O Rancho. Esse espaço é uma zona segura, onde o jogador pode cozinhar, plantar alimentos, criar munição, fabricar armas e gerenciar seus recursos. A progressão passa diretamente por esse sistema, já que a cada ambiente explorado, novos materiais são adquiridos e expandem as possibilidades. Para criar armas e munições, é preciso encontrar seus projetos pelo mapa. Cada novo projeto ou estrutura desbloqueada amplia as opções de combate, permitindo uma progressão bem equilibrada.

O gerenciamento é parte crucial da jogabilidade, mas ainda sofre com alguns problemas. Algumas mecânicas precisam encontrar um melhor equilíbrio, como por exemplo a fome. A fome é crucial para suas ações, no entanto, você nunca sente como se fosse ficar sem alimentos devido a abundancia de comida no mapa ou até mesmo que criou em sua base. Ao criar uma base consistente, é fácil criar suprimentos para longas expedições, diminuindo o impacto de certas mecânicas.

Por outro lado, munição é algo que pouco achamos no mapa. Encontrar balas e materiais para fabricação é extremamente difícil, principalmente no começo. Isso nos força a desviar de objetivos e inimigos para procurar recursos, quebrando o ritmo da aventura e tornando a aventura maior do que deveria.

Além disso, á um ciclo de dia e noite, mas ele acaba sendo pouco aproveitado. Explorar durante a noite é significativamente mais perigoso, porém não oferece recompensas reais que justifiquem o risco. Como é possível dormir e avançar o tempo praticamente sem consequências, o jogador é incentivado a ignorar a noite sempre que possível, o que torna esse sistema quase irrelevante.

I Hate This Place aposta em uma atmosfera única, trazendo uma perspectiva isométrica com cenários desenhados à mão, inspirados em quadrinhos de terror dos anos 80. Já as criaturas, são feitas para gerar desconforto e serem grotescas, funcionando perfeitamente com as cores e os cenários, transmitindo uma tensão real. Artisticamente o jogo possui uma direção de arte bem direcionada, mas que se atrapalha em problemas de desempenho.

Apesar da simplicidade visual, o desempenho peca e muito. O jogo passa por quedas de FPS constantemente, principalmente em áreas mais abertas ou em momentos de maior intensidade, quando vários inimigos estão próximos. Esses problemas apesar de pequenos, afetam a jogabilidade, que exige precisão no combate. Além disso, chega a ser irritante a falta de sincronia entre efeitos sonoros, visuais e ações do jogador. Esses problemas tiram um poco do brilho, mas não torna o jogo uma experiência ruim.

I Hate This Place vale a pena?

I Hate This Place tem ideias fortes, um conceito interessante e alguns sistemas que funcionam muito bem no papel. No entanto, a execução irregular, os controles problemáticos, o balanceamento falho de recursos e a falta de refinamento geral impedem que o jogo alcance todo o seu potencial. Ainda assim, fãs de survival horror podem encontrar aqui momentos de tensão genuína e boas ideias de design, desde que entrem com expectativas moderadas. Não é um jogo ruim, mas é difícil não sentir que poderia ter sido muito melhor.

Agradeço a Feardemic pelo envio do jogo para review!

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