Herdling, da Okomotive, é uma joia rara. O jogo dispensa completamente palavras, diálogos ou tutoriais, mas consegue transmitir uma carga emocional enorme apenas com seus visuais, trilha sonora e mecânicas de interação. Guiando criaturas chamadas Calicorns por um mundo arruinado, você participa de uma jornada silenciosa, mas profundamente tocante — uma reflexão sobre empatia, perda e o desejo universal de encontrar um lar. Mesmo sem dizer uma única frase, Herdling fala mais alto do que muitos jogos com roteiros inteiros.
Em Herdling, você controla uma criança sem nome que acorda em uma cidade destruída, embaixo de uma ponte. Nada é explicado. Tudo é conduzido por ambientação e pistas visuais. Pouco tempo depois, você encontra um Calicorn — uma criatura entre cabra e búfalo — ferido e assustado. Você o ajuda, ele confia em você, e assim começa a sua missão: guiar esses seres de volta à natureza, longe do concreto e da ruína.
A narrativa é totalmente visual, mas não menos profunda. O sentimento de hiraeth — saudade por um lar que talvez não exista mais — está presente em cada passo. Cada Calicorn que se junta à jornada carrega uma personalidade única. E mesmo sem dizer uma palavra, o jogo transmite temas poderosos como reconstrução, afeto e pertencimento. A ligação entre protagonista e manada cresce a cada interação, e a jornada se torna algo íntimo, quase espiritual.
Diferente da maioria dos jogos, Herdling não coloca você no controle direto dos personagens principais. Em vez disso, você influencia o comportamento dos Calicorns usando gestos, comandos e um cajado feito de flores e galhos. O foco é no cuidado — e não no controle.
A mecânica central gira em torno do pastoreio. Você guia o grupo, dá ordens como parar, correr ou andar devagar, e precisa prestar atenção nas reações individuais de cada criatura. Elas são diferentes entre si: algumas são medrosas, outras mais brincalhonas. Isso afeta como você resolve os puzzles ambientais, como atravessar pontes estreitas, evitar predadores ou escapar de perigos naturais.
Detalhes como acariciar os animais, brincar com bolas feitas de vinhas, ou escová-los criam uma relação de afeto muito real. Quando um Calicorn se machuca, vê-lo mancando ou chorando parte o coração. Quando se recupera, o alívio é verdadeiro. Pequenos tropeços técnicos — como a dificuldade de selecionar exatamente qual criatura interagir em grupos grandes — acontecem, mas nunca estragam a experiência. Pelo contrário: reforçam a sensação de vulnerabilidade compartilhada entre o jogador e os animais.
Visualmente, Herdling é um espetáculo emocional. A cidade onde tudo começa é cinza, fria e sufocante. Carros abandonados, lixo e prédios em ruínas criam uma atmosfera melancólica. Mas, conforme a jornada avança, o mundo se transforma: o cinza dá lugar ao verde, flores desabrocham e a vida volta a pulsar. Essa transição visual acompanha, com força simbólica, o crescimento emocional do jogador.
Os Calicorns são lindamente animados, com detalhes únicos como padrões no pelo, chifres elaborados e expressões vívidas nos olhos. Além disso, o cuidado com a movimentação — como o pelo ao vento ou as reações ao terreno — dá uma vida impressionante aos personagens não-humanos.
Rodando no PlayStation 5, Herdling oferece desempenho sólido: carregamentos rápidos, bugs ocasionais mas que não atrapalham a jornada e controles bem adaptados. A movimentação exige paciência em passagens estreitas, mas nunca compromete a experiência.
A trilha sonora é o elemento que eleva Herdling ao patamar das experiências inesquecíveis. Com arranjos suaves de cordas, sopros e percussões delicadas, a música reage organicamente às ações do jogador. Caminhar sob chuva evoca melodias introspectivas; correr por campos floridos traz notas vibrantes. Além disso, parece que os próprios Calicorns cantam com seus passos — celebrando, lamentando ou simplesmente seguindo em frente.
Agradecimentos a Panic que nos enviou o jogo para a produção do review!
Conclusão
Herdling é uma obra-prima silenciosa que emociona sem dizer uma palavra. Com visuais tocantes, trilha sonora responsiva e uma mecânica centrada no afeto, o jogo nos lembra da importância do cuidado e da conexão. Mesmo com pequenos tropeços técnicos, sua jornada é profundamente humana — ainda que guiada por criaturas fantásticas. Uma experiência íntima, poética e inesquecível.
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