Sempre que um jogo possui o selo Devolver Digital, ele já tem a minha atenção. A publisher sempre trabalhou com jogos diferentes no mercado, basta ver seus últimos lançamentos, como Baby Steps, Ball x Pit e até mesmo Possessor(s). Com isso em mente, eu fui de coração aberto para Skate Story, jogo desenvolvido por Sam Eng e me surpreendi em diversos aspectos.
A narrativa sustenta é a grade base para o jogo, mas sua jogabilidade sólida complementa de forma única ao misturar combate com manobras de skate. No entanto, não é um jogo para todos, mas se você for assinante da PlayStation Plus Extra pode jogá-lo de graça, algo que recomendo para que tire as próprias conclusões.
Skate Story apresenta uma história bela e distorcida, que parece sair de uma fábula moderna. No papel de um demônio de vidro, percorremos o Submundo para cumprir um pacto com o Diabo. Em troca de recuperar nossa alma, devemos devorar a lua, uma tarefa nada simplesmente, principalmente pela lua ter se partido em sete e estão espalhadas em diversas regiões. Cada uma delas possui personalidade única, refletindo na maneira como se sentem com a ideia de serem consumidas.
Para contar a história, temos um belo narrador, o Diabo. Como um grande contador de histórias, ele é incisivo e familiar, comentando seus avanços e fracassos de forma irônica, mas também com admiração. A trama se sustenta na sensibilidade humana, mesmo parecendo meio absurda. Ela aborda temas como inspiração, desânimo, que devemos aprender a nos reconstruir de nossos cacos e que tudo acontece por um motivo, o processo é inevitável.
Outro grande destaque da narrativa são os habitantes do Submundo, que aprofundam a história emocionalmente e dão vida ao ambiente infernal. As criaturas daqui fascinam: sapos cuidam de lanchonetes, e esqueletos discutem picles como se fossem a melhor coisa do mundo. No entanto, o grande destaque vai para as criaturas que possuem uma conexão narrativa mais profunda, que estão perdidas em ciclos de arrependimentos e contam suas histórias através dor.
A jogabilidade de Skate Story se destaca pela precisão e pelo ritmo hipnótico. As manobras exigem timing adequado, mas a falta dele raramente pune de forma severa: você apenas perde um pouco de pontuação, mantendo o fluxo e o progresso intactos. Com tutoriais claros e opções de acessibilidade robustas, o jogo rapidamente se torna natural, permitindo que qualquer jogador encontre seu próprio estilo.
As técnicas apresentadas são bem variadas, indo de stomps para ganhar velocidade, ollies, filps, manual, grinds e grandes combos acompanhados por belo efeitos visuais. A sensação de deslizar pelo mapa ouvindo o deslizar das rodinhas e o impacto do skate, criam uma imersão incrível. No entanto, o jogo possui alguns problemas de colisão, principalmente em grinds, fazendo com que o skatista de vidro se estilhace em pedaços.
Aqui não existe um sistema de combate tradicional, mas pequenas “lutas” contra os chefes da Lua. Somos desafiados a realizar diversas sequências de truques para acumular pontos antes de finalizar o chefe. A tensão aqui é real devido ao tempo limite disponível, mas ainda é algo justo.
As missões secundárias aparecem nos hubs de mundo aberto, onde criaturas peculiares pedem pequenas ações ou interações. Essas tarefas complementam o tom da narrativa e reforçam a sensação de estar vagando por um sonho. Além disso, desafios opcionais de pontuação rendem soul, moeda usada para comprar cosméticos, sem pressionar o jogador a esgotar conteúdos.
Visualmente, Skate Story é um sonho vaporwave-psicodélico filtrado por uma lente VHS arranhada. Tudo é granulado, neon e levemente pixelado, como se o jogo oscilasse entre o físico e o espectral. Apesar desse experimentalismo, os ambientes são surpreendentemente legíveis para um jogo que flerta com o caos visual, mérito do design cuidadoso, que evita que a estética se torne um ruído sensorial total.
Cada cenário parece reinterpretar pedaços de Nova York através do prisma do inferno, criando contradições hilárias e belas como uma lanchonete de bagels administrada por uma rã simpática ou dungeons estilizadas como becos urbanos.
O desempenho no PlayStation 5 é sólido e não possui problemas que impedem a progressão. Apesar da taxa de quadros estável e o tempo de carregamento quase inexistente, o jogo apresenta diversos problemas de colisão, sons repetindo infinitamente e algumas seções que reiniciam sem a menor explicação. Nada disso torna a jornada menos encantadora, mas são problemas que podem ser corrigidos (e já estão, diversas atualizações saíram nos últimos dias).
Skate Story vale a pena?
Skate Story é uma experiência singular que mistura narrativa sensível, visual deslumbrante e jogabilidade fluida para criar algo marcante. Mesmo com problemas de colisão e pequenos bugs, o jogo permanece envolvente graças ao seu ritmo hipnótico e à força emocional de seus personagens. Não é um título para todos, mas recompensa quem se entrega ao seu mundo estranho e poético, oferecendo uma jornada impactante e memorável através do Submundo e de nós mesmos, de forma realmente profunda.

Agradeço a Devolver Digital pelo envio do jogo para review!









